Nesse espetáculo iluminado por sóis de espuma e tinta guache, aprendíamos a suprimir as frustrações repetindo o mantra "sonhar é poder" entoado logo no café da manhã ao mastigarmos o pão velho com manteiga e sem mordomo pra nos servir.
O debut é uma overdose de serotonina e estrogênio inundando os ouvidos, inflamando os sentidos, deixando os mamilos dormentes e uma vontade doida de trepar.
Janelle Monae lança mão de todos os ingredientes disponíveis para o sucesso de uma diva pop: estilo musical da moda (hip hop), batida e refrões marcantes, duetos, empolgação, romantismo.
No Brasil, com exceção da MPB – onde os dedos dos pés e das mãos não são suficientes pra enumerar os lançamentos mpbísticos femininos do mês - , há poucas mulheres cantando. E muitas mulheres cantando mulheres.
Na música sertaneja, porém, elas não preenchem os dedos dos pés. Sula Miranda, Roberta Miranda, são as únicas que consigo lembrar que aventuraram suas botinhas brancas na poeira dos rodeios e firmaram-se, em certa medida, ao lado de monstros sagrados e profanos do cancioneiro sertanejo. E entre esse seleto grupo, reencontro As Marcianas.
Dominique - As Marcianas
Ah....As Marcianas! A melhor dupla sertaneja feminina da América pós-bolivariana.
Perdi a conta das noites em que adormeci embalada pelos falsetes em uníssono de Adriana e Celina: vou te amarrar na minha cama/só vai fazer amor comigo ou Oh! Meu amado/por que brigamos/Não posso mais viver assim/sempre chorando, estremecendo a caixinha de som sintonizada na rádio Caiçara. Longe do mato, do pasto, mas perto de algumas tias vacas, a viola sertaneja me dá saudades de tudo que ainda não vi.
Celina, filha do grande João Mineiro - da dupla João Mineiro e Marciano, daí o nome As Marcianas, saca? - formou dupla com Adriana em 1981 e fizeram relativo sucesso até 1992 quando ganharam o Troféu Imprensa (o estranho Oscar da tv brasileira, que Silvio Santos apresenta e manda, pelos Correios, o troféu aos agraciados) pela lúbrica “Vou te amarrar na minha cama”. Nesse período, ganharam até prêmio Sharp e Canário de Ouro.
Na árdua tarefa de encontrar 20 sucessos de cantores díspares, tanto em gênero como em sucesso, a famigerada série Bis da EMI consagra e desencava cantores como Maria Bethânia, Raul Seixas, Alan & Aladin, Fernando Mendes, e trouxe uma edição histórica da dupla As Marcianas: além das clássicas “Vou te amarrar na minha cama”, “Dominique”, “Por que brigamos” (regravação da cantora Diana, aquela que o Odair José pegou); canções à João Mineiro e Marciano (“Nossa melodia preferida”, a divisão silábica delas é igualzinha a da antiga dupla), guarânias e pérolas como “Paineira do nosso amor”, “Vem cá, caminhoneiro” e “Carreta Feiticeira”.
Estão nas filas dos buffets, no balcão dos cafés ou atrapalhando a porta de saída dos ônibus. Véias, de idade ou de mente, têm o triste vício de darem opinião sem serem solicitadas.
Cansada de falar, divagar e esganiçar sem ser ouvida criei o blog para divulgar canções e idéias incomuns, empoeiradas, impolutas.
Críticas e saraivadas fundamentadas são bem-vindas.