Sullivan e Massadas no idílico mundo das botas brancas

Nesse espetáculo iluminado por sóis de espuma e tinta guache, aprendíamos a suprimir as frustrações repetindo o mantra "sonhar é poder" entoado logo no café da manhã ao mastigarmos o pão velho com manteiga e sem mordomo pra nos servir.

The Runaways: Serotonina inundando os ouvidos.

O debut é uma overdose de serotonina e estrogênio inundando os ouvidos, inflamando os sentidos, deixando os mamilos dormentes e uma vontade doida de trepar.

Do right woman! A frágil irmandade feminina

Enquanto os homens são capazes de machucar o meu corpo, as mulheres têm o poder de destruir minha alma.

Janele Monáe: Andróide do Pop

Janelle Monae lança mão de todos os ingredientes disponíveis para o sucesso de uma diva pop: estilo musical da moda (hip hop), batida e refrões marcantes, duetos, empolgação, romantismo.

Gang 90: O primo pobre da Blitz

Um sonho estranho nas paredes do prédio, prefiro morrer de vodca do que de tédio.

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10/05/2011

Neusinha Brizola: Mintchura new wave

Ao vencer nas urnas e no grito as eleições para governador do Rio de Janeiro em 1982, Brizola não imaginara que o seu calcanhar de Aquiles dormia no quarto ao lado após se acabar na noite do Baixo Gávea.


Vítima de uma tentativa de fraude arquitetada pelo Governo Militar, em parceria com as Organizações Globo, que tentou impedir sua eminente vitória; Brizola se antecipou e denunciou a fraude eleitoral para a imprensa estrangeira. Desmoralizado, Roberto Marinho detectou na tresloucada herdeira de Brizola um meio de atingir a credibilidade política de seu desafeto. 

O bote da Som Livre
Companheira de farra e de pó de artistas globais e músicos do nascente Brock80, Neusinha Brizola foi contratada pela gravadora do clã Marinho, a Som Livre, nos primórdios de 1983. Gozando de suspeita liberdade artística para uma estreante e ampla divulgação na mídia, Neusinha encarnava a paródia de si própria ao cantar no programa do Chacrinha a profética Mintchura.New wave farofa que narrava suas desventuras ao aceitar o convite para uma festa onde estaria a Blitz: Chegamos em um bairro afastado numa rua escura/ O prédio era tão velho que não tinha nenhum elevador/ A cobertura era uma kitnet a festa era mintchura/ mintchura... mintchurá.


A estréia em um LP próprio, dispensando a prova de fogo da vendagem de compactos, e o clipe de Mintchura produzido pelo Fantástico evidenciam a intenção da Som Livre em patrocinar e divulgar o resultado das rédeas frouxas que Brizola mantinha em seus domínios. Produzido pelo mago Paulo Coelho, o álbum compila onze canções compostas em parceria com o roqueiro gaúcho Joe Euthanazia.


Inconstante, o canto de Neusinha é ora anasalado, ora infantil, recheado de efeitos sonoros com rotações alteradas; o clima é alegre e a linguagem sonora é uma mescla de onomatopéias de HQ e interpretações de teatro performático em versões para Geraldo Vandré e Beatles (Back In The U.S.S.R. virou Voltando a Nova Iguaçu, por exemplo).


O LP era uma mintchura inocente e engraçada a cada rotação por minuto.

A Sacerdotisa do Mate: o PT é muito Piazza
 Sob o lema da diversão e bom-humor, a “primeira-filha” quebrava o protocolo fazendo a alegria da oposição em escândalos sucessivos como o ensaio de capa da Playboy (embargado na porta da gráfica por Brizola), a extravagante cerimônia de casamento onde se vestira de Cleópatra para receber a benção do grã-vizir Paulo Coelho e suas constantes visitas aos morros cariocas e delegacias imortalizou a gíria “cheirar Brizola” como sinônimo de usar cocaína.


Inspirada pela campanha do pai, Neusinha propagandeava os fundamentos do Movimento Anarquista Tropicalista Energético (MATE): um ajuntamento pseudo-cultural, fundado em mesa de bar, que possuía meia dúzia de integrantes no qual Neusinha se auto-proclamava sacerdotisa. Nas páginas amarelas da Veja, ela definia o que era “ser mate”: é gostar da cidade, parar de ser contra o progresso, curtir tecnologia e parar com aquelas manias dos anos 60, de fugir para o campo, comer pão integral, andar com cabelo comprido e cheio de lêndea. Isso tudo é o “antimate”, é ser piazza.

 
Com muito escracho o MATE revelava a identidade do brasileiro criado na apatia da Ditadura: alheio a dicotomia política; crítico ao desapego material esquerdista; adepto da terceira via política e sexual e ansioso pelas delícias do desenvolvimentismo.E Neusinha confirmava: Piazza é a mania de ser hippie. Asa delta, surf, comida natural – tudo o que vira muito sério, meio religioso. O PT é muito Piazza!!! 


Neusinha - Neusinha Brizola aqui!! 


Neuzinha Brizola by mestradosmagos on Grooveshark


13/04/2011

Retratos do Brasil: é tudo pose

O pica das galáxias
Músico, graduado em Direito, poliglota e judeu convertido. Homem generoso que não poupa esforços pelo conforto da família e amigos. Criado em uma família de classe média alta, por amor a sua origem humilde e identificação político-ideologica logo cedo envolveu-se com os líderes  do morro do Borel e passou a cantar sobre o cotidiano sofrido de seu povo em pérolas poéticas como   Passa o pau na cara dela ,  Ela mama no meu ganso  e  Bumbum não se perde . 

Com versos machistas, meias verdades e exposição de esfíncteres, MC Catra conquistou corações e mentes (vazias) do morro e do asfalto por diferentes razões. Para as fãs as músicas de Catra são a oportunidade de exibir o corpo e se esfregar em todas as virilhas peludas disponíveis, numa demonstração refinada da sensualidade brasileira. Para os sociólogos, formados nos programas da Regina Casé, Catra corporifica a criatividade do “povo” - afinal fazer versões despudoradas de canções pré-existentes é coisa que só a sagaz cabeça do brasileiro pode fazer. Para os homens, ele lembra aquele colega da oitava série,bagaceiro e sem noção, que mostra o pau pras criancinhas e aterroriza as tias velhas torpedeando palavrões a cada olhar enviesado. 

O porra louca, o maluco, o vilão.
Multi-instrumentista, um dos fundadores do Brock e ateu convicto. Homem mordaz que coleciona desafetos e polêmicas. Virou ícone de uma geração com a qual não se identificava, entrou no mainstrean como integrante da Blitz mas abandonou a banda às portas do sucesso, enfileirou hits na carreira solo mas comprou briga com as gravadoras, cheirou milhas de cocaína, foi preso diversas vezes por porte de drogas e ficou na cadeia por três meses.

Na penitenciária de Bangu, dividiu a cela com os líderes do Comando Vermelho, tornando-se uma espécie de mascote da facção durante anos.  Enfrentou a turba enfurecida no Rock in Rio 2 por tentar fundir rock com a bateria da Mangueira, é persona non grata  entre artistas e executivos por lutar  pela numeração dos discos e fez um dos melhores  álbuns da "axé-zenta" década de 90. Sua trajetória inconstante, a paranóia de que Herbert Vianna o imita e o despudor em criticar colegas e denunciar os esquemas sórdidos da indústria fonográfica colocaram Lobão no rol dos artistas loucos, problemáticos, quase irremediáveis.  Ignorado pelas rádios, excluído do revival oitentistasua carreira oscila entre o sucesso e o fiasco.

Antimonotonia e bundamolice
Verborrágicos e provocadores Catra e Lobão lançaram na mesma época a versão oficial de suas trajetórias: o documentário 90 dias com Catra e a autobiografia Lobão – 50 anos a mil. 

Lobão não poupa afetos e inimigos, destilando em mais de 600 páginas aquilo que o brasileiro mais abomina: pensamento crítico, ateísmo, indiferença com a instituição família. Pois aqui, critica é levada para o pessoal, duvidar da existência de Deus é ofensa e admitir que o vínculo familiar não basta para amar é doença. Alheio ao clima de “deixa disso” e “não-comprometimento”, o compositor desafia a “bovinice” brasileira a cada entrevista tendo como único censor as reminiscências das doses cavalares de cocaína.

Em tempos em que pose é tudo, Catra personifica a canalhice consentida e se apresenta como o rei da boiada. Na mira da PM devido aos “proibidões” (funks que exaltam a bandidagem e incitam a violência contra policiais), o funkeiro poliu sua imagem investindo pesado na temática predileta do brasileiro: putaria.
Catra não é formado em Direito, cursou somente dois anos, mas no Brasil ser quase um doutor já dá status de pessoa “estudada” que deve ter suas opiniões respeitadas por default. Sexualmente libertário porém machista, cercado de amigos, filhos e esposas Mc Catra distribui conselhos, gargalhadas e ignorância geral entre goles de cerveja, salsichão e maconha: mulher é feliz hoje, se vivesse na Idade Média e fosse gostosa ia morrer queimada porque aqueles caras eram tudo viados, não gostavam de gostosa ou  Tu precisa estudar. Teu pai estudou muito, hoje já não preciso ler pois já sei o que tá escrito.

Harmonizando a imagem de cafajeste mas bom pai; de homem simples  porém culto; o resultado de 90 dias com Catra é um mosaico de meias-verdades e demonstrações patéticas de pseudo-inteligência.Catra ganha louros e respeito por ser um retrato do brasileiro médio: bundamole, cafajeste, hipócrita, irresponsável, impressionável com a pose sem pensar na essência, é o pica das galáxias. Lobão, por ser polêmico, é tachado de violento, virou caricatura e tem sua personalidade diluída em meros adjetivos: porra-louca, maluco, vilão. É o veneno antimonotomia contra a bundamolice da MPB.














31/03/2011

Toda tosquice será perdoada: a trilha de Maria

Quatro horas sob tortura: hematomas, cansaço, água fria e trombadas contra a parede. Os corpos cansados mergulham no silêncio para resistir a tentação de entregar os pontos;  até que num rompante non-sense ela canta esganiçada e alegremente: Já chegou, já chegou/Novamente a bonança/Todo mal já passou/Já voltou a esperança/Vamos dançar e namorar/Sempre alegre ser/Vivendo assim a sorrir/ A vida tem mais sabor/ É o tempo do amor.

Poderia ser Wanderléa abrindo os trabalhos no álbum homônimo, saudando o tempo do amor no alvorecer da ditadura militar; mas é somente Meg Maria Merillo em mais uma demonstração da irritante e pavorosa alegria dos ignorantes. Ignorância que quando confinada nas curvas de uma fêmea é mais atributo do que ofensa, atrai testosterona, perdoa tosquices e gera grana, muita grana.

Depois de agraciar os gays e desvalidos, faltava romper o penúltimo grilhão contra o opressor – o homem branco, hétero e remediado - e conceder o prêmio para uma representante do sexo frágil. Ou em uma fala bialesca, agraciar uma deusa que passeou distraída pela Ágora tropical que uma década de BBB criou. 

Mata-me depressa: de Maria Madalena Meg a simplesmente Maria

Tal como os um album de Wanderléa, amor, separação, dor e vingança boba andaram de mãos dadas na trajetória de Maria. Com a urgência típica dos adolescentes envolveu-se cedo com um dos participantes; enviuvou em um luto que diluiu-se após duas latas de cerveja e na aparição de um outro alguém.

Mas o ex voltou das trevas do “mundo lá fora” com sangue nos olhos, sentindo-se traído pelo passado e presente como Meg e ela passou a exalar por todos os poros masoquismo e auto-piedade, incorporando a Ternurinha da Jovem Guarda em escândalos que só são bonitos nas canções de dor-de-cotovelo: eu quero tanto um pouco de carinho/não me maltrate/não seja tão ruim/está em seus olhos que você gosta de mim, suplicava embaixo do edredon ou atirando a calcinha no rosto do seu algoz. Cansada de se humilhar sem ganhar um mililitro de saliva, leu algumas páginas de um manual para conquistar homens, fez uma prova de fogo com o ex e saiu por aí repetindo o consolo dos rejeitados: ele não me merecia.

Entregou-se a outro bem, para delírio do público feminino que via os conselhos de mãe se concretizar em tempo recorde: pare de chorar, logo logo você vai encontrar alguém melhor que ele. E pra coroar a sorte grande, o novo amor de Maria era um doutor que ostentava cavalheirismo (ou bananice?) e beleza em altas doses; que não hesitou em protegê-la mesmo ciente de que ela jamais hesitou em votar nele para a eliminação.

Enquanto os colegas de confinamento brigavam por miudezas como combinação de votos, alianças sexistas e auto-marketing para faturar um milhão e meio de reais, Maria viveu o programa como uma guria de 13 anos em férias de verão: só pensava em amar e ser amada - verbo conjugado no tempo etéreo, onde qualquer atração é impar e arrebatadora.

Bial e alguns analistas teimam em acreditar que a vitória é um sinal de ruptura no conservadorismo da moral do brasileiro - uma mulher dadivosa, que ficou com dois homens no programa, que dizia aos quatro ventos que sentia falta de sexo, conseguiu conquistar a preferência do público – e que a auto-flagelação de Maria foi assunto em botequins e rodas de café.

Ledo engano, o público do programa é afeito a narrativa folhetinesca e ao encarnar a mocinha apaixonada e rejeitada, Maria eclipsou Meg e seu passado obscuro disponível em qualquer sextube. Conquistou o público feminino que identificou-se com alguém que erra por “amar demais”, e o séquito masculino pela beleza e burrice, pois é bonitinho e meiguinho ser burra (para alguns incautos é  até sinal inconteste de feminilidade).

Maria ganhou o milhão e meio por ser exatamente o que se espera que uma mulher seja: burra, traíra, sentimental, inofensiva e inconseqüente.  


Ouça a trilha de Maria: Wanderlea - 1967 



Faixas:
01. Gostaria de Saber
02. Nenhuma Carta Sua
03. Vou lhe Contar
04. Você Tão Só
05. Ele é Meu Bem
06. Menina Só
07. Hei de Encontrar Meu Bem
08. Acho que Vou lhe Esquecer
09. Horóscopo
10. Te Amo
11. Prova De Fogo
12. Meu Bem Só Gosta de Mim
13. Vou Conseguir
14. Vou lhe Deixar

14/01/2011

Não dura até junho: Rock and Roll originals

Um enigma para as classes médias responsáveis pela dormência cultural, adaptou- se às exigências do mercado para chegar ao poder e vendeu a marca da inovação, quando na verdade designava algo pré-existente. Quando surgiu, muitos pensaram que era uma febre passageira, que não resistiria a duas ou mais estações. Poderia ser a Dilma, mas falo do bom e morto rock and roll.

Enquanto a presidenta ficou no corpo de Lula feito tatuagem, mudou o visual e amaciou o tom de voz para ficar mais amável aos necessitados e menos histérica aos remediados, renegou seu passado na luta armada; tornando-se praticamente um avatar de Lula; o rock and roll dos primórdios também era um novo nome para um velho ritmo: o rhythm and blues (R&B), começou com a voz macia e melodiosa de Fat´s Domino e acabou no estrondo da queda do avião onde estavam Ritchie Vallens, Bud Holly e Big Booper.

Na escalada ao poder Dilma agregou aliados inconciliáveis até então, reiterando a maior lição petista: no Brasil, ideologia é aquela palavra estranha da música do Cazuza. O rock and roll também chegou ao poder como uma manifestação delinqüente, um ritmo contestador que abalava a estrutura vigente, mas ao tomar de assalto as paradas da Bilboard o gênero foi lentamente domesticado, fagocitado, dividido em vertentes (rockabilly, twist, country-rock, surf rock, rock-balada), buscando formulismos e conseqüentemente, perdendo em espontaneidade até morrer em 1959 no acidente aéreo com Buddy Holly, Richie Valens e Big Booper.

Halley, Valens, Holly: fugazes como um cometa

Em meados dos anos 1950, o radialista norte-americano Alan Freed, sob o pseudônimo Moondog apresentava um programa de rádio (Mooondog's Rock’n’Roll Party) em Cleveland, Ohio, onde tocava gravações originais de & blues (R&B), ou seja, gravações de artistas negros, para uma audiência formada por jovens negros e brancos; e lançou mão do termo rock and roll em substituição a R&B para ampliar a aceitação por parte do público branco. Contudo, ao longo dos anos cinqüenta o rock and roll já não era um sinônimo de R&B, pois as regravações feitas por artistas brancos agregaram elementos do country & western diversificando a identidade do ritmo: muito sax tenor e piano, contrabaixos marcantes, bateria e guitarra ainda discretas.

Rock around the clock – trilha de abertura de Sementes da Violência (Blackboard Jungle) – foi o marco que transcendeu o rock and roll de um mero ritmo musical a um estilo de vida que costurava música, comportamento e mercado. A relação entre o rock and roll e o comportamento já é velha conhecida, mas sua ligação com os ditames do mercado para muitos causa estranhamento, afinal, “rock and roll é rebelde, contestador”, dizem. É, meu caro amigo, após 2003 volta e meia questão semelhante é levantada: “como pode quem lutou pela liberdade e igualdade de direitos aliar-se aos inimigos de ontem?”.

De fato o rock foi rebelde durante o tempo em que a sociedade e a mídia tentaram conter a pélvis de Presley, assim como Lula e Cia também o foram enquanto estavam do lado de fora da estrutura. Refeita do impacto, a indústria fonográfica tratou de abrandar o caráter contestador e a sonoridade do rock and roll, assim o suingue de Fat´s Domino em Ain´t that a Shame, por exemplo,  perdeu a malícia na versão glicosada de Pat Boone.

A coletânea 50 Rock and Roll Originals reúne as dissonâncias ritmicas do gênero. Fats Domino representa a transição entre R&B (Fat Man) e rock and roll (All by myself); Only You (The Platers) e Wheel of Fortune (Cardinals) traduzem a faceta pré-adolescente e palatável do ritmo, I hear you knockin (Smiley Lewis) é uma pepita de sensualidade e Chuck Berry, bem, é rock and roll em estado puro.

Cria do R&B, o rock and roll procurou sair da sombra do mestre, conquistando sem demora a autonomia e autenticidade, desgrenhando os cabelos, perseguindo a harmonia entre o grito e o canto. Resta saber se Dilma também conseguirá destoar do coro. 



01 - Elvis Presley - Mystery Train
02 - Big Mama Thornton - Hound Dog
03 - Little Richard - Tutti Frutti
04 - Elvis Presley - You're A Heartbreaker
05 - Frankie Lymon - Why Do Fools Fall In Love
06 - Chuck Berry - Maybelline
07 - Fats Domino - Reelin' & Rockin'
08 - Bill Haley - Shake, Rattle, Roll
09 - Bo Diddley - I'm A Man
10 - Ray Charles - I Got A Women
11 - Elvis Presley - Baby Let's Play House
12 - Fats Domino - Little School Girl
13 - Elvis Presley - I'm Left, You're Right, She's Gone
14 - Little Richard - All Night Long
15 - Fats Domino - The Fat Man
16 - Robins - Riot In Cell Block 9
17 - Chuck Berry - 30 Days
18 - Crew Cuts - Sh'Boom
19 - Bill Haley - Rock The Joint
20 - Elvis Presley - Blue Moon Of Kentucky
21 - Dominoes - Have Mercy Baby
22 - Bo Diddley - Bo Diddley
23 - LaVern Baker - Jim Dandy
24 - Elvis Presley - Good Rockin' Tonight
25 - Fats Domino - Ain't That A Shame

01 - Bill Haley - Rock Around The Clock
02 - Ray Charles - See You Later Alligator
03 - Elvis Presley - Don't Care if The Sun Don't Shine
04 - Smiley Lewis - I Hear You Knockin'
05 - Little Richard - Get Rich Quick
06 - Drifters - Money Honey
07 - Clovers - Your Cash Ain't Nothin' But Trash
08 - Elvis Presley - Milk Cow Blues Boogie
09 - Bill Haley - Crazy Man Crazy
10 - Chuck Berry - You Can't Catch Me
11 - Cardinals - Wheel Of Fortune
12 - Amos Milburn - Chicken Shack Boogie
13 - Fats Domino - Mardi Gras In New Orleans
14 - Harptones - Life Is But A Dream
15 - Bo Diddley - Diddley Daddy
16 - Bill Haley - Burn The Candle
17 - Fats Domino - Every Night About This Time
18 - Elvis Presley - I Forgot To Remember To Forget
19 - Penguins - Earth Angel`
20 - Bill Haley - Rocket 88
21 - Little Richard - I'm Just A Lonely Guy
22 - Fats Domino - All By Myself
23 - Crows - Gee
24 - Elvis Presley - That's All Right Mama
25 - Platters - Only You



07/01/2011

Nós, os gaúchos: Nei Lisboa

Aqui o futebol é mais viril, o povo mais honrado, os homens mais virtuosos, as mulheres mais gostosas, a cultura mais cosmopolita e é onde o sol se põe mais bonito.

Quem atravessa o Mampituba – rio que faz fronteira entre o Estado e Santa Catarina   - têm a missão de “cultivar as raízes” e jamais render-se ao carioquês. Rótulo que grudou em Elis Regina que replicava sabiamente  “não vim ao Rio de Janeiro para abrir um CTG, vim pra ser cantora”.

Flertamos perigosamente com a perspectiva nós versus o mundo. Um desastre natural abalou a Nova Zelândia? Os jornais publicam o testemunho de um gaúcho, por mais inócuo que seja; As mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho?! E tome reportagem de mulheres que assam churrasco “muito melhor que muitos machos por aí”; Escândalo da vez em Brasília? É mais importante buscar os gaúchos envolvidos do que discutir sobre o fato em si. Nosso imaginário social busca incessantemente identificar e valorizar dissonâncias com o resto do Brasil a ponto de forjar predicados: da “nobreza’’ dos ideais e desdobramentos da Revolução Farroupilha a uma terminação musical própria como a famigerada MPG (Música Popular Gaúcha).

Etc.. e tal. – sobre como a música gaucha se autofagocita.

Sigla oitentista a MPG nada mais é do que um neologismo para a MPB feita no Rio Grande do Sul, sobretudo em Porto Alegre. Surgiu como demarcação de fronteira  com outra futilidade terminológica chamada Rock Gaúcho: de um lado Kleiton & Kledir, Nelson Coelho de Castro de outro Replicantes, TNT, Garotos da Rua. 

Se olhassem acima da mureta de Mampituba seria fácil notar que à epoca já existiam termos bem definidos e consagrados: MPB e Rock brasileiro diferenciavam satisfatoriamente Osvaldo Montenegro de Plebe Rude.  E quem alega que a necessidade de uma nova sigla vem da peculiariedade do ritmo gaudério esquece que a MPB, a partir de meados dos anos 70, tornou-se um mosaico de gêneros (samba, bossa nova, rock, jazz) que compartilham a letra em português, a presença do violão e a discrição da guitarra.

Há quem diga (coincidentemente os incautos da imprensa local) que o mercado musical gaúcho é grande o suficiente e as bandas daqui devem mesmo optar Opinião lotado do que se entregar as garras do mainstream se prostituindo por cinco minutos de playback no Faustão. Mas tchê! As inovações estéticas e experimentações são inerentes ao underground e não brotam somente no mármore velho da Lancheria do Parque, isto é, seja em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro ou Recife a cena local é fertil, ousada e representa a identidade local por default. Talvez, o que nos diferencie dos brasileiros seja a atenção que a imprensa local dedica aos artistas gaúchos - um grande mérito se o senso crítico vencesse o provincianismo, impedindo que bandas mais do mesmo como Nenhum de Nós tenham sucesso na proporção inversa de sua qualidade.

Jóia daqui, Nei Lisboa é um dos pilares da MPB produzida no paralelo 30. Eclético e polêmico -  crítico do hermetismo dos CTG´s e da própria geração, alheio aos rótulos musicais -  ao longo de nove albúns Nei flertou com rock, blues, milonga, frevo, balada, reggae entre outros generos.

Seu album de estreia lançado em 1983, Pra viajar no Cosmos, não precisa gasolina tem belas canções como a faixa título, Dooddy II, e as cannabis referentes Exaltalção e Síndrome de Abstinência; e momentos constrangedores como o frevo Me chama de Robert.

No entanto é em sua primeira incursão além do Mampituba que Nei Lisboa desfila um setlist inspirador, praticamente a sua obra-prima. Lançado pela EMI em 1988, Hein?! conjuga excelência artística, empolgação  e tragédia pessoal em  interpretações e climas difusos: Rima Rica/Frase Feita soa como um pedido de perdão (Muito obrigado por tudo/Pelo teu suor, pelos teus gemidos/E espero que a minha estupidez/ Cicatrize teus sentimentos feridos/Nasci e morro assim, só/ Perdido no escuro, dentro de mim), Hein?!  é uma alusão aos perigos da fama e Teletransporte nº 4 fecha o albúm referindo-se diretamente a morte de sua namorada , Leila Espellet em um acidente de carro. Não há melhor release do que a do prórprio cantor:

Não há como separ ar o disco Hein?! da tragédia pessoal, da nossa precipitada viagem de carro em meio às gravações, da perplexidade de um acidente estúpido, da vida e da morte de Leila Espellet. Tal como uma longa e sinuosa curva da serra, a idéia inicial de um trabalho despretencioso e brincalhão se contorce e retorce em busca de uma explicação ou de uma repetição do tempo que a realidade não concede. As letras se distinguem e se embaralham entre o antes e o depois, tanto quanto me divido e certamente se dividem todos os que a conheceram. Talvez indecifrável para muitos, ainda que o disco permaneça cultuado por faixas como Faxineira, Fábula e Telhados de Paris, é para mim em Teletransporte que a inevitável arte de expiar a culpa alcança algum sucesso, com frases e imagens da própria Leila e apontando o caminho de lembrar da beleza e coragem do seu trabalho como designer de moda. O resto é silêncio, é retiro, piano de cauda aberta em um estúdio vazio.

Na prática, a MPG é MPB com referências de música nativista e ritmos platinos. Nei Lisboa é o nosso Caetano, a milonga nosso samba, o Bom Fim a nossa Bahia e nada nos faltaria se não houvessem várias facetas de nós, gaúchos: o gaúcho do Bom Fim, o Gaúcho da Fronteira, o colono de Caxias, o gaúcho de Passo Fundo, a marisqueira de Cidreira,  o “clube do povo” e o imortal tricolor. Aqui,  nós mesmos somos “o outro”, mas isso é assunto para outro post. 



Curiosidade: A recusa de Nei Lisboa em gravar uma versão, causou seu rompimento com a EMI pelos idos de 1988. Originalmente, a proposta era gravar uma versão escrita por Ronaldo Bastos (parceiro de Milton Nascimento e compositor de perolas pop oitentista como “Um certo alguém”) para a novela global Top Model. Porém ao entrar em estúdio a versão apresentada era de Rossini Pinto (versionista renomado da Jovem Guarda), Nei se recusou a gravar e Kiko Zambianchi imortalizou a infame versão de Hey Jude.











Hein?! (1988 - EMI)
01 - Zen (Vinheta)
02 - No Fundo
03 - Hein!?
04 - Nem Por Força
05 - A Fábula (Dos Três Poréns)
06 - Faxineira
07 - Baladas
08 - Rima Rica / Frase Feita
09 - Fim do Dia
10 - Telhados de Paris
11 - Teletransporte nº 4

03/12/2010

Serotonina inundando os ouvidos – The Runaways

Rock pré-fabricado, engarrafado e pronto pra consumir ou uma boa banda de rock and roll?? Tanto faz.
A união do produtor musical Kim Fowley com uma banda de garotas de 16/17 anos de idade, instrumentalmente limitadas porém viscerais ajudou a resgatar a ousadia e sensualidade do rock. Com a particularidade que a mulher teria voz ativa na sua representação - mesmo com o dedo de Kim Fowley, os petardos do disco de estreia são de autoria de Joan Jett: Cherry Bomb, You Drive me Wild. Contudo, o trabalho de marketing e criação de Kim Fowley contribuiu para que a banda nunca fosse levada a sério por parte da imprensa.O público mais conservador também não engolia garotas tocando rock e cantando letras sobre sexo e vida nas ruas em alto e bom som. - Ei, garoto, qual é a sua? (...) Vou te ter, te agarrar até te machucar. 
Depois de Billie Holliday, Nina Simone e outras divas alternarem independência afetiva  - questão de sobrevivência para as negras dos tempos da segregação - e masoquismo; de Rita Pavone viver as turras com os pais que a proibem de ir  ao baile; Aretha Franklin e Tina Turner gritarem a auto-afirmação feminina e étnica; Joan Jett pôs a cereja do bolo no feminismo: sexo. 

Don't hold off, I need your lovin'
                                        Não se afaste, preciso do seu amor 
It's so hot, it feels like an oven
                                        Está tão quente, parece um forno
My head is all filled with crazy thoughts
                                        Minha cabeça está cheia de pensamentos loucos
When I come down I can't be fought.
                                      Quando eu chegar, não poderei ser derrotada.

Entre riffs, gritos e gemidos The Runaways mostravam que mulheres gostam de sexo. Sem vergonha e sem culpa. Igualando-se aos homens nos desejos e necessidades,  sem se colocarem como divinas  ou superiores, sem delongas como my heart it´s on fire e outras metáforas sobre lua aflita.
The Runaways são diretas e quentes. O debut é uma overdose de serotonina e estrogênio inundando os ouvidos, inflamando os sentidos,  deixando os mamilos dormentes e uma vontade doida de trepar.


  1. "Cherry Bomb" (Joan Jett, Kim Fowley) - 2:18
  2. "You Drive Me Wild" (J. Jett) - 3:22
  3. "Is It Day or Night?" (K. Fowley) - 2:45
  4. "Thunder" (Mark Anthony, Kari Krome) - 2:31
  5. "Rock & Roll" (Lou Reed) - 3:17
  6. "Lovers" (J. Jett, K. Fowley) - 2:09
  7. "American Nights" (M. Anthony, K. Fowley) - 3:15
  8. "Blackmail" (J. Jett, K. Fowley) - 2:41
  9. "Secrets" (Cherie Currie, K. Fowley, K. Krome, Sandy West) - 2:43
  10. "Dead End Justice" (S. Anderson, C. Currie, K. Fowley, J. Jett) - 7:01
 


 

04/03/2010

Rita Pavone

Pelos idos de 1962 os Estados Unidos estava curado da febre do rock and roll. Os movimentos lúbricos de Elvis Presley, as performaces incendiárias de Jerry Lee Lewis e o embalo sacana de Fats Domino perderam espaço para o rock "gomalina" e açucarado de Neil Sedaka, Frankie Avalon, Paul Anka. O rock and roll deu origem a vertentes estilísticas: rock and roll, rockabilly, country-rock, surf rock, rock balada, twist, hully-gully...

A rebeldia foi abrandada, as guitarras diluídas pelos teclados e a voz rascante encoberta pelos maneirismos vocais. O rock and roll amadurecera ao incorporar elementos das bandas crooners cinquestistas? Ou tinha sido fagocitado pela indústria, embalado, pasteurizado e tabelado para a venda?

Nem um nem outro,o impacto comercial e cultural e seus ecos mundo afora e concluir que o rock está imbuído de uma tríade de significados (música, comportamento e mercado) capaz de abarcar no mesmo termo sonoridades tão díspares quanto a de Jerry Lee Lewis, Wanderléa e Them Crooked Vultures.

E na Itália de 1962 os ecos do rock vinham de uma figura sardenta, esmirrada e com agudos estridentes: Rita Pavone, com o single La Partita de Pallone. O
s traços infantis e as letras de romance adolescente destoavam do rock/beat "feio, sujo e malvado" que crescia nas cidades portuárias da Inglaterra.

ícone da cultura pop dos anos 1960, figura carimbada  no Ed Sullivan Show, Rita Pavone enfileirou sucessos  -  Come te non c’è nessuno, Cuore, Datemi un martello, Che m'importa del mondo, Viva la pappa, Il geghegè -  e abasteceu o rock sulamericano de versões e cantoras clones.


Coletânea Rita Pavone

Rita Pavone conquista o mundo







Uma das primeiras aparições de Rita Pavone:


 

19/04/2008

O primo pobre da Blitz - Gang 90 e as Absurdetes


Nos idos dos anos 2000, a revista Showbizz detectava o incipiente revival dos anos 80 no rock brasileiro: permanências (Paralamas, Titãs), retornos (Capital Inicial, Ultraje a Rigor, Ira!) e muita, muita necrofilia (culto a Legião Urbana).

Uma década inteira se passou e muitos quebraram a lápide das suas sepulturas para capitalizar com os últimos acordes/suspiros (vide o moribundo RPM, cantando Olhar 43). É só buscar pelo set list das festas pra perceber: os anos 80 ainda não acabou.

E é nesse espírito de revival e também com a esperança de jogar a ultima pá de cal no moribundo anos 80 que trago à baila o álbum de estréia da Gang 90 e as Absurdetes.

Liderada por Júlio Barroso, a Gang despontou em 1981 no Festival MPB-Shell, da TV Globo. Entre idas e vindas no eixo: Nova York-Rio de Janeiro, Julio Barroso entusiasmou-se com o sucesso da Blitz e a Gang lançou o album "Essa tal de Gang 90 e as Absurdetes" em 1983, emplacando canção Nosso Louco Amor na novela, quase homônima, Louco Amor.
 
Com um new-wave de letras recheadas de referências a cultura pop - enquanto a prima rica Blitz se preocupava com chopp e batata frita - o disco foi bem recebido pela crítica, mas acho que só por essa infíma fatia de público. Em 1984, Julio Barroso despencou do 5º andar de seu apartamento em São Paulo e a Gang parou por mais um ano, voltou em 1985, mas logo em 1987 encerrou de vez suas atividades.


Ouça, antes que os 80 acabe

1)Nosso Louco Amor
2)Romântico a Gô-go
3) Telefone
 4) Eu sei, mas eu não sei
5)Convite ao Prazer
6)Dada globe orixás
7)Perdidos na selva
8)Noite e dia
9)Mayacongo
 10)Jack Kerouac

Gang 90 & As Absurdetes by Tia Véia on Grooveshark


14/04/2008

(re)União Ibérica - Aterciopelados

O Brasil sempre esteve de costas, ou em guerra, para/com os hermanos latino-americanos. Essa indiferença e ódio mortal criaram abismos culturais entre América lusa e a espanhola. Abismo tão intransponível que o número de músicos que ultrapassaram as Cordilheiras e invadiram as FM´s não preenche o meio de campo do Boca Juniors: Menudos, Shakira, Julio Iglesias (espanhol, que atravessou o Atlântico) e, talvez, Carlos Gardel.

Pelos idos de 1997, querendo promover a (re)União Ibérica nos cantões da América, a MTV, promoveu o festival MTV Tordesilhas, em Porto Alegre: duas noites de apresentações de bandas brasileiras e latinas (Paralamas, Skank, Aterciopelados, Café Tacuba, Los Tres). Conhecidos por meia dúzia de descolados, a receptividade porto-alegrense – que já não é lá essas coisas – foi fria, o Gigantinho estava às moscas.


Aterciopelados - Florecita Rockera 

Aterciopelados foi o melhor show da noite, não por mérito próprio, mas porque os outros foram bem broxantes. Formado por Andrea Echeverri (vocal e guitarra) e Hector Buitrago (arranjos e baixo) em 1990, os Aterciopelados fazem uma fusão de rock, ritmos latino e música eletrônica (eletrônica inteligível, diga-se de passagem, não as do estilo: table, table, table, table em compassos diferentes). 

Vale conferir “Bolero Falaz”, “Baracunatana” e “Juégale Apuéstale” – versão pra “Play the Game” do Queen. Nessas horas que penso: felizes moscas que viram os Aterciopelados.


1. Bolero Falaz
2. Florecita Rockera
3. No Necesito
4. La Estaca
5. Baracunatana
6. La Culpable
7. El Estuche
8. Juegale Apuéstale
9. La Pipa De La Paz
10. Caribe Atomico
11. Maligno
12. El Album
13. Luz Azul
14. Rompecabezas
15. Mi Vida Brilla
16. Tantor Amor
17. Florecita 2003


Aterciopelados - Evolucion by Tia Véia on Grooveshark

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