Vítima de uma tentativa de fraude arquitetada pelo Governo Militar, em parceria com as Organizações Globo, que tentou impedir sua eminente vitória; Brizola se antecipou e denunciou a fraude eleitoral para a imprensa estrangeira. Desmoralizado, Roberto Marinho detectou na tresloucada herdeira de Brizola um meio de atingir a credibilidade política de seu desafeto.
O bote da Som Livre
Companheira de farra e de pó de artistas globais e músicos do nascente Brock80, Neusinha Brizola foi contratada pela gravadora do clã Marinho, a Som Livre, nos primórdios de 1983. Gozando de suspeita liberdade artística para uma estreante e ampla divulgação na mídia, Neusinha encarnava a paródia de si própria ao cantar no programa do Chacrinha a profética Mintchura.New wave farofa que narrava suas desventuras ao aceitar o convite para uma festa onde estaria a Blitz: Chegamos em um bairro afastado numa rua escura/ O prédio era tão velho que não tinha nenhum elevador/ A cobertura era uma kitnet a festa era mintchura/ mintchura... mintchurá.
A estréia em um LP próprio, dispensando a prova de fogo da vendagem de compactos, e o clipe de Mintchura produzido pelo Fantástico evidenciam a intenção da Som Livre em patrocinar e divulgar o resultado das rédeas frouxas que Brizola mantinha em seus domínios. Produzido pelo mago Paulo Coelho, o álbum compila onze canções compostas em parceria com o roqueiro gaúcho Joe Euthanazia.
Inconstante, o canto de Neusinha é ora anasalado, ora infantil, recheado de efeitos sonoros com rotações alteradas; o clima é alegre e a linguagem sonora é uma mescla de onomatopéias de HQ e interpretações de teatro performático em versões para Geraldo Vandré e Beatles (Back In The U.S.S.R. virou Voltando a Nova Iguaçu, por exemplo).
O LP era uma mintchura inocente e engraçada a cada rotação por minuto.
A Sacerdotisa do Mate: o PT é muito Piazza
Sob o lema da diversão e bom-humor, a “primeira-filha” quebrava o protocolo fazendo a alegria da oposição em escândalos sucessivos como o ensaio de capa da Playboy (embargado na porta da gráfica por Brizola), a extravagante cerimônia de casamento onde se vestira de Cleópatra para receber a benção do grã-vizir Paulo Coelho e suas constantes visitas aos morros cariocas e delegacias imortalizou a gíria “cheirar Brizola” como sinônimo de usar cocaína.
Inspirada pela campanha do pai, Neusinha propagandeava os fundamentos do Movimento Anarquista Tropicalista Energético (MATE): um ajuntamento pseudo-cultural, fundado em mesa de bar, que possuía meia dúzia de integrantes no qual Neusinha se auto-proclamava sacerdotisa. Nas páginas amarelas da Veja, ela definia o que era “ser mate”: é gostar da cidade, parar de ser contra o progresso, curtir tecnologia e parar com aquelas manias dos anos 60, de fugir para o campo, comer pão integral, andar com cabelo comprido e cheio de lêndea. Isso tudo é o “antimate”, é ser piazza.
Com muito escracho o MATE revelava a identidade do brasileiro criado na apatia da Ditadura: alheio a dicotomia política; crítico ao desapego material esquerdista; adepto da terceira via política e sexual e ansioso pelas delícias do desenvolvimentismo.E Neusinha confirmava: Piazza é a mania de ser hippie. Asa delta, surf, comida natural – tudo o que vira muito sério, meio religioso. O PT é muito Piazza!!!
Neusinha - Neusinha Brizola aqui!!















