Sullivan e Massadas no idílico mundo das botas brancas

Nesse espetáculo iluminado por sóis de espuma e tinta guache, aprendíamos a suprimir as frustrações repetindo o mantra "sonhar é poder" entoado logo no café da manhã ao mastigarmos o pão velho com manteiga e sem mordomo pra nos servir.

The Runaways: Serotonina inundando os ouvidos.

O debut é uma overdose de serotonina e estrogênio inundando os ouvidos, inflamando os sentidos, deixando os mamilos dormentes e uma vontade doida de trepar.

Do right woman! A frágil irmandade feminina

Enquanto os homens são capazes de machucar o meu corpo, as mulheres têm o poder de destruir minha alma.

Janele Monáe: Andróide do Pop

Janelle Monae lança mão de todos os ingredientes disponíveis para o sucesso de uma diva pop: estilo musical da moda (hip hop), batida e refrões marcantes, duetos, empolgação, romantismo.

Gang 90: O primo pobre da Blitz

Um sonho estranho nas paredes do prédio, prefiro morrer de vodca do que de tédio.

Mostrando postagens com marcador Julia Graciela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Julia Graciela. Mostrar todas as postagens

26/04/2011

Julia Graciela: Mulher moderna usa Assolan

Madonnas ou Amélias, submissas ou independentes, mulher-fruta ou mulher-cesta básica; não importa o rótulo e sim o fato: lugar de mulher é na cozinha.

Não, não é falta de corporativismo da minha parte. A verdade foi revelada nos reclames do Jornal Nacional e proclamada por um velho companheiro das mulheres. Atrás de uma bancada cheia de produtos de limpeza Marisa Orth, Monica Iozzi e Dani Calabresa se revezam em xingamentos violentos e ironias toscas afirmando que mulher evoluída é quem zela e luta pelo asseio da privada, o fogão desengordurado e o extermínio dos ácaros.

Que se danem as greves nas portas das fábricas, esqueçam os debates sobre a pílula e a conquista de direitos milenarmente masculinos. Simone Beauvoir, quebrou tabus por uma só causa: a liberdade de xingar os maridos sem levar uns sopapos. Com um Bombril na mão e a Lei Maria da Penha embaixo do braço, nada irá nos deter!

É fácil imaginar a satisfação das donas-de-casa ou adeptas da dupla jornada, escondendo um sorriso no canto da boca e repetindo a si mesmas, logo após o comercial, o rosário que desfiam com as amigas: é isso mesmo, homem só serve pra aquilo e olhe lá. “Aquilo” que é tratado como elemento sacro da relação, é tema discutido, esmiuçado e responsável por zilhoes de preocupações; “aquilo” que as mulheres-bombril dizem ser bem-resolvidas enquanto na verdade mal tocaram o próprio clitóris.

Posam de femme fatale, de personagem dos clipes da Rihanna enquanto não passam de arremedos da Julia Graciela.

Sonhos desbotados
Presença constante no programa do Chacrinha, Julia Graciela tornou-se conhecida pela crônica cantada Anúncio de Jornal. Uma mini tragédia com aroma de Mon Bijou: em tempos que não havia processo por assédio sexual, a história da moça intocada que é seduzida pelo chefe, e depois de apaixonada, desvirginada e amaciada é demitida sem justa causa metia medo nas estudantes do curso de datilografia.
  Julia graciela - Anúncio de Jornal 

Autora de pérolas da submissão emotiva como Não interessa se eu sou a outra/o importante é ter você (Eu sou aquela); as canções da argentina são o supra-sumo de tudo aquilo que as mães e tias nos ensinam a ser em matéria de relacionamento: insegura, ingênua, masoquista, submissa, suplicante por raspas e restos de afeto. Defeitos que passamos a vida toda tentando consertar.

Ao longo dos anos oitenta o fatalismo e auto-piedade de ícones como Julia Graciela, Diana e Perla foi soterrado pela imagem da mulher autosuficiente, poderosa e decidida. Onde “mulherzices” que o feminismo lutou por abolir (fragilidade, dependência econômica, instabilidade emocional) só são reivindicadas quando convém;  isto é nos livramos da obrigação de lavar cuecas mas ainda exigimos que o homem mantenha seu papel de macho provedor.

Destilando a misandria  
O movimento feminista se perdeu na curva, diluiu-se em demonstrações de misandria (termo quasedesconhecido que define a aversão gratuita e radical ao gênero masculino). Perdeu o propósito na futilidade disfarçada de sexualidade voraz das personagens de Sex and the City, nos suvacos peludos de Beth Ditto e na burrice das mulheres-frutas. Pois ao reivindicar a liberação sexual e a divisão democrática do trabalho, as companheiras exageraram na dose e dividiram-se entre mulher-objeto e mulher-abjeta.

A sensualidade a flor da pele das divas pop alimentou o monstro do corpo perfeito e erotizado, construído para provocar ereções a cada passo e sempre disposto para o sexo. Auto-proclamadas independentes e modernas, nós, anônimas, cedemos a submissão ao buscarmos obstinadamente o orgasmo mais intenso, a sinfonia de assovios e os olhares mais devassos.  Tentamos ser Barbie, enquanto as amarras da normalidade, fiéis a lei da gravidade, gritam que somos representadas por Bridget Jones e Maitena. 

As abjetas exploram até as últimas conseqüências a pertinência de uma noção arcaica do consciente coletivo: mulheres são boas selvagens (tal como os índios) não importa a ordem e a dimensão de suas falhas, a culpa é e sempre será do homem – por exemplo se ela trai, foi o homem quem deixou de satisfazê-la. Para elas , a mulher é superior por ter um ventre e a negatividade estrutural e ética da humanidade emana das virilhas peludas dos machos. 

Na pretensão de representar a mulher moderna, a campanha do Bombril presta um desserviço a igualdade dos sexos. Ao imaginar que a nossa felicidade é uma liquidação de Pinhobril, Marisa e companhia destilam misandria camuflada de piadinha e concomitantemente reforçam a noção de mulher-objeto, sempre disponível e dedicada ao homem seja na cozinha ou na cama.  

Feita para amar e ser só perdão, Julia Graciela com suas doses homeopáticas de lamúrias e sofrimento é a lembrança insistente de que a busca por autonomia nao suprime o desejo feminino de ter um macho pra chamar de seu. 
  
A Popularidade de Julia Graciela aqui!
01. Anúncio De Jornal
02. Por Amor Demais
03. Amantes
04. Despedida
05. Coração Rebelde
06. Talvez Foste Tu
07. La Canción Del Te Quiero
08. Saudade De Você
09. Eu Sou Aquela
10. Sem Você Não Tenho Nada
11. Manuela Mulher
12. Amiga Do Vento
13. Desiludida
14. Escreva-Me Uma Carta




O FILME: Uma curiosidade é que "Anúncio de Jornal" virou filme com o mesmo título, rodado na boca do lixo paulistana em 1984, sob a direção de Luiz Gonzaga dos Santos, seguindo uma tendência da época de transformar em película clássicos da música popular. 

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More