Sullivan e Massadas no idílico mundo das botas brancas

Nesse espetáculo iluminado por sóis de espuma e tinta guache, aprendíamos a suprimir as frustrações repetindo o mantra "sonhar é poder" entoado logo no café da manhã ao mastigarmos o pão velho com manteiga e sem mordomo pra nos servir.

The Runaways: Serotonina inundando os ouvidos.

O debut é uma overdose de serotonina e estrogênio inundando os ouvidos, inflamando os sentidos, deixando os mamilos dormentes e uma vontade doida de trepar.

Do right woman! A frágil irmandade feminina

Enquanto os homens são capazes de machucar o meu corpo, as mulheres têm o poder de destruir minha alma.

Janele Monáe: Andróide do Pop

Janelle Monae lança mão de todos os ingredientes disponíveis para o sucesso de uma diva pop: estilo musical da moda (hip hop), batida e refrões marcantes, duetos, empolgação, romantismo.

Gang 90: O primo pobre da Blitz

Um sonho estranho nas paredes do prédio, prefiro morrer de vodca do que de tédio.

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07/01/2011

Nós, os gaúchos: Nei Lisboa

Aqui o futebol é mais viril, o povo mais honrado, os homens mais virtuosos, as mulheres mais gostosas, a cultura mais cosmopolita e é onde o sol se põe mais bonito.

Quem atravessa o Mampituba – rio que faz fronteira entre o Estado e Santa Catarina   - têm a missão de “cultivar as raízes” e jamais render-se ao carioquês. Rótulo que grudou em Elis Regina que replicava sabiamente  “não vim ao Rio de Janeiro para abrir um CTG, vim pra ser cantora”.

Flertamos perigosamente com a perspectiva nós versus o mundo. Um desastre natural abalou a Nova Zelândia? Os jornais publicam o testemunho de um gaúcho, por mais inócuo que seja; As mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho?! E tome reportagem de mulheres que assam churrasco “muito melhor que muitos machos por aí”; Escândalo da vez em Brasília? É mais importante buscar os gaúchos envolvidos do que discutir sobre o fato em si. Nosso imaginário social busca incessantemente identificar e valorizar dissonâncias com o resto do Brasil a ponto de forjar predicados: da “nobreza’’ dos ideais e desdobramentos da Revolução Farroupilha a uma terminação musical própria como a famigerada MPG (Música Popular Gaúcha).

Etc.. e tal. – sobre como a música gaucha se autofagocita.

Sigla oitentista a MPG nada mais é do que um neologismo para a MPB feita no Rio Grande do Sul, sobretudo em Porto Alegre. Surgiu como demarcação de fronteira  com outra futilidade terminológica chamada Rock Gaúcho: de um lado Kleiton & Kledir, Nelson Coelho de Castro de outro Replicantes, TNT, Garotos da Rua. 

Se olhassem acima da mureta de Mampituba seria fácil notar que à epoca já existiam termos bem definidos e consagrados: MPB e Rock brasileiro diferenciavam satisfatoriamente Osvaldo Montenegro de Plebe Rude.  E quem alega que a necessidade de uma nova sigla vem da peculiariedade do ritmo gaudério esquece que a MPB, a partir de meados dos anos 70, tornou-se um mosaico de gêneros (samba, bossa nova, rock, jazz) que compartilham a letra em português, a presença do violão e a discrição da guitarra.

Há quem diga (coincidentemente os incautos da imprensa local) que o mercado musical gaúcho é grande o suficiente e as bandas daqui devem mesmo optar Opinião lotado do que se entregar as garras do mainstream se prostituindo por cinco minutos de playback no Faustão. Mas tchê! As inovações estéticas e experimentações são inerentes ao underground e não brotam somente no mármore velho da Lancheria do Parque, isto é, seja em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro ou Recife a cena local é fertil, ousada e representa a identidade local por default. Talvez, o que nos diferencie dos brasileiros seja a atenção que a imprensa local dedica aos artistas gaúchos - um grande mérito se o senso crítico vencesse o provincianismo, impedindo que bandas mais do mesmo como Nenhum de Nós tenham sucesso na proporção inversa de sua qualidade.

Jóia daqui, Nei Lisboa é um dos pilares da MPB produzida no paralelo 30. Eclético e polêmico -  crítico do hermetismo dos CTG´s e da própria geração, alheio aos rótulos musicais -  ao longo de nove albúns Nei flertou com rock, blues, milonga, frevo, balada, reggae entre outros generos.

Seu album de estreia lançado em 1983, Pra viajar no Cosmos, não precisa gasolina tem belas canções como a faixa título, Dooddy II, e as cannabis referentes Exaltalção e Síndrome de Abstinência; e momentos constrangedores como o frevo Me chama de Robert.

No entanto é em sua primeira incursão além do Mampituba que Nei Lisboa desfila um setlist inspirador, praticamente a sua obra-prima. Lançado pela EMI em 1988, Hein?! conjuga excelência artística, empolgação  e tragédia pessoal em  interpretações e climas difusos: Rima Rica/Frase Feita soa como um pedido de perdão (Muito obrigado por tudo/Pelo teu suor, pelos teus gemidos/E espero que a minha estupidez/ Cicatrize teus sentimentos feridos/Nasci e morro assim, só/ Perdido no escuro, dentro de mim), Hein?!  é uma alusão aos perigos da fama e Teletransporte nº 4 fecha o albúm referindo-se diretamente a morte de sua namorada , Leila Espellet em um acidente de carro. Não há melhor release do que a do prórprio cantor:

Não há como separ ar o disco Hein?! da tragédia pessoal, da nossa precipitada viagem de carro em meio às gravações, da perplexidade de um acidente estúpido, da vida e da morte de Leila Espellet. Tal como uma longa e sinuosa curva da serra, a idéia inicial de um trabalho despretencioso e brincalhão se contorce e retorce em busca de uma explicação ou de uma repetição do tempo que a realidade não concede. As letras se distinguem e se embaralham entre o antes e o depois, tanto quanto me divido e certamente se dividem todos os que a conheceram. Talvez indecifrável para muitos, ainda que o disco permaneça cultuado por faixas como Faxineira, Fábula e Telhados de Paris, é para mim em Teletransporte que a inevitável arte de expiar a culpa alcança algum sucesso, com frases e imagens da própria Leila e apontando o caminho de lembrar da beleza e coragem do seu trabalho como designer de moda. O resto é silêncio, é retiro, piano de cauda aberta em um estúdio vazio.

Na prática, a MPG é MPB com referências de música nativista e ritmos platinos. Nei Lisboa é o nosso Caetano, a milonga nosso samba, o Bom Fim a nossa Bahia e nada nos faltaria se não houvessem várias facetas de nós, gaúchos: o gaúcho do Bom Fim, o Gaúcho da Fronteira, o colono de Caxias, o gaúcho de Passo Fundo, a marisqueira de Cidreira,  o “clube do povo” e o imortal tricolor. Aqui,  nós mesmos somos “o outro”, mas isso é assunto para outro post. 



Curiosidade: A recusa de Nei Lisboa em gravar uma versão, causou seu rompimento com a EMI pelos idos de 1988. Originalmente, a proposta era gravar uma versão escrita por Ronaldo Bastos (parceiro de Milton Nascimento e compositor de perolas pop oitentista como “Um certo alguém”) para a novela global Top Model. Porém ao entrar em estúdio a versão apresentada era de Rossini Pinto (versionista renomado da Jovem Guarda), Nei se recusou a gravar e Kiko Zambianchi imortalizou a infame versão de Hey Jude.











Hein?! (1988 - EMI)
01 - Zen (Vinheta)
02 - No Fundo
03 - Hein!?
04 - Nem Por Força
05 - A Fábula (Dos Três Poréns)
06 - Faxineira
07 - Baladas
08 - Rima Rica / Frase Feita
09 - Fim do Dia
10 - Telhados de Paris
11 - Teletransporte nº 4

27/12/2010

A tristeza que balança: Elza , Grêmio e os Manés

O filho ingrato à casa torna. E ela aguarda alegre e de braços abertos, ensurdecendo para as mágoas, como mulher de bêbado que cultiva, orgulhosa, suas ‘’marcas de amor”. Como as mulheres sofridas de Chico Buarque,  o Grêmio esquece o bafo de cachaça, tira o pó dos retratos e abre os braços aos Assis.  Sob novas juras de amor, esquece que foi traído três vezes por um punhado de dólares  e agora, depois de um ocaso de quatro temporadas, os Assis querem voltar ao Olímpico para garantir tempos de paz e pagode na provinciana Porto Alegre.

Casos de amor, ódio e traição fazem a alegria do público e da imprensa especializada: os Assis x Gremio e Ronaldo x Flamengo são eventos marcantes da trairagem descarada no mundo do futebol. E o que dizer quando música e esporte se unem numa história de tragédia, traição, violência e redenção? Elza Soares e Mané Garrincha protagonizaram um romance que ultrapassou o rompimento da relação e foi um empecilho na carreira nacional da cantora. Maltratados por gênios do futebol, Elza e o Grêmio se unem na dor de lamber as feridas e dão a outra face na esperança de ganhar beijos ao invés de tapas.

É difícil quantificar se Elza Soares tem mais melodramas ou cicatrizes de cirurgias plásticas em sua vida. Paupérrima, dona de uma voz rouca, rasgada, de grande extensão aperfeiçoada enquanto carregava latas de água na cabeça balbuciando sons ao ritmo daquele balanço; Elza teve seu primeiro filho aos 12 anos, começou a cantar profissionalmente em shows de calouros no rádio enquanto seu primeiro casamento desmoronava abaixo de pancadas.
Enfim viúva e mãe de sete filhos, em 1958 Elza passou uma temporada de sucesso na Argentina brindada com a trairagem do  empresário da turnê, obrigando-a a cantar na Ricoleta em troca do dinheiro da passagem de volta. De volta ao Brasil, em 1960 Elza emplacou  relativo sucesso após o álbum Se acaso você chegasse, fez dueto com o mestre do jazz Louis Armstrong e em 1962 tornou-se a ilustre concubina de Mané Garrincha.

A história de amor e perdição entre o Grêmio e os Assis é menos ilustre, mas não menos polêmica: o jovem meia esquerda Roberto de Assis logo cedo corneou o clube que o revelou ao fugir para o Torino no intuito de forçar o presidente gremista Paulo Odone a assinar um contrato milionário. Relevando a instabilidade econômica que assolava o Brasil no final da década de 1980, Odone assinou contrato que incluía também uma casa para a família Assis Moreira - local onde o patriarca dos Assis morreu ao cair na piscina vazia em 1989. Com uma proposta mais tentadora, Assis forçou sua saída do clube para jogar no inexpressivo futebol suíço. Era o primeiro tapa à mão estendida.

Também em terras alpinas outros boleiros fizeram história, no caminho inverso de Assis. Nos idos de 1958, Garrincha e Pelé conquistaram a Jules Rimet e o lugar na cama de algumas suecas. De volta ao Brasil, o Rei e do Anjo de Pernas Tortas começavam a trilhar caminhos diferentes: Pelé acumulava títulos, excelentes performances e contratos publicitários; ao passo que Garrincha colecionava filhos, mulheres, martelinhos de cachaça e era explorado pelos dirigentes do Botafogo - época em que o negócio era mais rentável aos clubes do que aos jogadores.  

A profissionalização no futebol é questão recente, da década de 1970 pra cá e teve seu marco com a transferência de Pelé para o clube norte-americano Cosmos. O mesmo Edson Arantes que no começo do milênio instituiu a Lei Pelé, visando conceder a “alforia” dos jogadores ao tornarem-se proprietários do passe. Na prática, o passe dos boleiros só mudou de dono e os clubes formadores não se adequaram a nova lei. Os Assis  aproveitaram a brecha para cuspir no Grêmio pela segunda vez: entre juras de amor e de fico Ronaldinho e o irmão Assis, agora seu procurador, assinaram pré-contrato com o Paris Saint-Germant  e deixaram o Grêmio de mãos abanando sem pagar um centavo pela formação.

Sem dinheiro também, mas com muitos tapinhas no ombro e alegria, Garrincha carregou a seleção brasileira de 1962 no bicampeonato – Pelé sofreu uma contusão e assistiu a Copa no banco de reservas -  e voltou ao Brasil com a taça e uma musa na bagagem: Elza Soares. A paixão era tão intensa que a primeira vez do casal durou dias e só acabou porque os dirigentes do Botafogo foram à casa de Elza junto com a imprensa para ‘’resgatar Garrincha da Gomorra’’.

Inconseqüente e alegre, como o brasileiro gosta, Garrincha apresentou Elza à mulher e os filhos e a polemica do concubinato público e consentido foi o tema do ano na Cruzeiro, Fatos e Fotos e afins. Elza assumiu o posto de mulher de malandro (ou seria de Mané?) e deu a cara a tapa em todos os sentidos. Alegria e inconseqüência é também o que encantou os brasileiros e metade dos sulistas nos anos de ouro de Ronaldinho Gaucho.Duas vezes eleito melhor jogador do mundo, Ronaldinho era símbolo do futebol moleque dentro e fora de campo: noitadas, beberagem, corpo mole, são marcas que ele deixa nos clubes que passa. E agora, o Grêmio quer de volta a molecagem do clã Assis.

Molecagem de Garrincha que sempre foi perdoada. Acossada pelos paladinos da moral e bom costume como uma “destruidora de lares” e responsabilizada pela “perdição de um gênio”, os álbuns de Elza eram sucesso de crítica mas não conquistavam grande público. Entre comunhões sexuais extasiantes, bebedeiras violentas, pancadaria e sambas inovadores e viscerais Elza cantava para sustentar o marido e os filhos, ajudar as amantes e ex-mulheres de Mané, afasta-lo do álcool e manter-se lúcida. Lucidez que rendeu ótimos álbuns como “Elza Pede Passagem” de 1972, clássico do samba-soul marcado pelo naipe de metal das suingadas Cheguendengo, Saltei de Banda, Maria vai com as outras e a estupenda O Gato.

01. Cheguedengo
02. Saltei de banda
03. Maria vai com as outras
04. Samba de pá
05. Abc da vida
06. Barão Beleza
07. Rio carnaval dos carnavais
08. O gato
09. Pulo pulo
10. Amor perfeito
11. Mais do que eu







18/11/2010

Quando Gal era fatal: a diva dos nabos

De 1973 para cá Gal deixou de ser fatal. Os seios caíram, as amizades pioraram (quem não se lembra dela defendendo o ACM?), os cabelos perderam o volume, o repertório amadureceu – eufemismo para ‘’paumolesceu’’ – e Gal trocou o ácido por um passatempo ainda mais viciante e inócuo: Farmville.

No Facebook, jogo Farmville e Cafe World. Adoro! E jogo Xbox com meu filho. Adoro esses joguinhos e também assisto com meu filho a todos os desenhos que compro pra ele. Amo! (...)Eu tenho fazenda, tenho café. As pessoas às vezes pedem para jogar e imediatamente tornam-se meus vizinhos.

Se antes o derretimento progressivo dos neurônios rendia escolhas brilhantes no repertório e pérolas interpretativas como  “Dê um Rolê”, “Cultura e Civilização”, “Tuareg” e “Luz do Sol”;  hoje a troca de cenouras por um punhado de nabos germinam um cancioneiro pouco inspirado e interpretações tão sonolentas quanto o ruminar de vacas.
E dá-lhe regravações de Chico Buarque, Tom Jobim, Bossa Nova e do repertório antigo em meio aos compromissos virtuais como podar árvores, lavar porcos e saudar o novo vizinho de cerca. 
Se pelo menos Gal Costa se divertisse com JOGOS como  Shadow of the Colossus, Gears of  War e Limbo teria chance de recuperar a verve e criatividade do começo de carreira e voltar a ser a masterchief da  filantrópica MPB.

Gal - A todo Vapor/Fatal - 1971
Sob a direção de Roberto Menescal, Gal Costa fez uma série de shows no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro.  
Compilado em um album duplo, Fa-tal registra uma Gal vibrante, ousada e agressiva acompanhada pela guitarra indefectivel de Lanny Gordin.
Cheio de ruídos e improvisos, A todo Vapor traz grande versões de compositores ''novatos'' (Luiz Melodia), malditos (Wally Salomão) e marginalizados (Roberto e Eramsmo Carlos).

Detaques para Pérola Negra, Vapor Barato, Dê um Rolê e Mal Secreto.

1 Fruta Gogóia – Gal Costa – (Folclore) (0:40)
2 Charles Anjo 45 – Gal Costa – (Jorge Benjor) (0:26)
3 Como 2 E 2 – Gal Costa – (Caetano Veloso) (2:45)
4 Coração Vagabundo – Gal Costa – (Caetano Veloso) (3:44)
5 Falsa Baiana – Gal Costa – (Geraldo Pereira) (5:34)
6 Antonico – Gal Costa – (Ismael Silva) (4:46)
7 Sua Estupidez – Gal Costa – (Roberto Carlos & Erasmo Carlos) (4:02)
8 Fruta Gogóia – Gal Costa – (Folclore) (1:06)
9 Vapor Barato – Gal Costa – (Jards Macalé & Wally Salomão) (8:37)
10 Dê Um Rolê – Gal Costa – (Moraes Moreira & Galvão) (4:05)
11 Pérola Negra – Gal Costa – (Luiz Melodia) (4:44)
12 Mal Secreto – Gal Costa – (Wally Salomão & Jards Macalé) (5:02)
13 Como 2 E 2 – Gal Costa – (Caetano Veloso) (4:32)
14 Hotel Das Estrelas – Gal Costa – (Jards Macalé & Duda) (4:30)
15 Assum Preto – Gal Costa – (Luiz Gonzaga) (3:49)
16 Bota A Mão Nas Cadeiras – Gal Costa – (Folclore) (1:09)
17 Maria Bêthania – Gal Costa – (Caetano Veloso) (0:44)
18 Não Se Esqueça De Mim – Gal Costa – (Caetano Veloso) (1:59)
19 Luz Do Sol – Gal Costa – (Carlos Pinto & Wally Salomão) (5:22)

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